Voz do Deserto
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Carlos

Anteontem quando passeava com o meu Caleb de três anos pelo centro de Oeiras parei para espreitar a Igreja Católica. À saída uma senhora nos seus setentas meteu conversa com ele e abençoou-o bem (em nome de Deus), abençoou-o mal (em nome da Nossa Senhora) e perguntou-lhe o nome. Ao que respondi: “Caleb”. A senhora: “Carlos?” E eu: “Não, Caleb. É um nome da Bíblia, do Velho Testamento.” E a senhora: “Ainda por cima…”

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Nesta comunidade a importância que colocamos no estudo da Bíblia afirma que confiamos não nas nossas capacidades intelectuais mas nas capacidades do Espírito Santo. Numa igreja o uso do neurónio é sempre pentecostal.
O sermão de Domingo passado aqui.

O Miguel Esteves Cardoso nunca me salvou a vida

Tenho uma relação complicada com o Miguel Esteves Cardoso. Céus, não nos conhecemos e não tenho talento para sequer almejar a uma interacção pessoal com ele. A relação complicada que tenho com o Miguel Esteves Cardoso tem a ver com apreciar-lhe a inteligência ao mesmo tempo que tendo a resistir ao fenómeno que gerou. E isto talvez nem seja inteiramente justo com o Miguel Esteves Cardoso porque o que mais me irrita é o Miguel Esteves Cardoso que vejo nos outros. Ou seja, grande parte da relação complicada que tenho com a pessoa Miguel é o facto de encontrar um Miguel pouco razoável amado por todas as outras pessoas.
Muitas vezes penso que a minha geração gosta do Miguel Esteves Cardoso pelas razões erradas. Dou um exemplo: as pessoas enternecem-se com a entrevista do Presente que o MEC deu à Fátima Campos Ferreira por causa de todas as outras entrevistas do Passado. As pessoas suportam hoje o Miguel a falar sobre Deus e Santo Agostinho porque o Miguel durante décadas falou sobre fornicação e cocaína. Aliás, o título do último livro (“É Linda a Pu*a da Vida”) é mais uma manifestação do dispositivo que é concedido ao Miguel: suportem-me como conservador na medida em que escrevo como um libertino. Se o Miguel começasse a carreira hoje com esta conversa seria rápida e impiedosamente incluído na mesma cela de João César das Neves.
Atenção que quando escrevo isto não malho no Miguel mas numa admiração que têm por ele que acho perversa. Porque é uma admiração que se fica pela casca, pela forma estouvada do que diz, sem ir ao conteúdo, ao que ele está efectivamente a dizer. A conversa com Fátima Campos Ferreira faz numa metade de hora um percurso notável em direcção ao que realmente importa (novamente pelo mérito do Miguel porque continua a dar-me ideia que a Fátima Campos Ferreira ouve os seus entrevistados sem grandes vestígios de compreender o que eles dizem). Apesar de algumas inconsistências lógicas (o Miguel percebe tão bem o quão sobrenaturalmente fantástica é a vida mas desliga-a da acção directa de Deus, por exemplo) a maneira corajosa e generosa como aproveita os assuntos (e os endireita) e discorre sobre eles é um verdadeiro privilégio televisivo (aliás, cheguei a esta entrevista porque o meu amigo da música, José Camilo, se lembrou de mim por causa do Miguel falar de Agostinho). Na prática isto significa dois punk rockers a verem tv por causa de um elemento teológico - só o Miguel proporcionaria o fenómeno. Não temos como agradecer-lhe.
Escrevo isto para malhar nas pessoas que fazem do talento do Miguel uma razão não para serem mais inteligentes mas para serem mais condescendentes. E isto perturba-me porque em muito sinto que encaixo em alguns dos rótulos que o Miguel usa e sei que as pessoas que me aturam com esses rótulos também me aturam de uma maneira parecida que aturam o Miguel. Explico. O Miguel é um gajo conservador de quem se pode gostar porque parece esteticamente liberal. Também há gente que tem um bocadinho de pachorra para mim porque eu sou o Pastor do Rock (um rótulo péssimo, bem sei). Na prática significa que nós nos vamos safar porque a causa nos serve a nós e não nós que servimos a causa. E significa também que vamos receber elogios dos nossos adversários pelas razões erradas: não porque respeitam as nossas posições diferentes mas porque as nossas posições estão o suficientemente abafadas pelos nossos hábitos que lhes parecem comuns. É uma palmada nas costas dada com um punhal.
O pior é que muitos julgam-se tolerantes porque até acham piada ao Miguel Esteves Cardoso que é um tipo conservador. Quando na verdade só acham piada ao Miguel Esteves Cardoso porque em muito ele não é assim tão conservador. As consequências do efeito Miguel nos partidos conservadores em Portugal é terrível. O CDS tornou-se um partido que tenta apelar a novos conservadores desde que não sejam assim tão conservadores (a liberdade de voto para a votação da semana passada é um atestado de óbito moral ao partido). A maior admiração que eu posso ter ao Miguel não é achar que ele me serve de colete à prova de balas junto de quem está no outro lado da batalha ideológica. É aplicar a ele aquilo que ele sempre tão bem fez aos outros: crítica.

A Religiosa Timidez Portuguesa

[Este texto foi a minha intervenção numa palestra sobre a espiritualidade dos Portugueses que aconteceu nesta Segunda na Universidade Lusófona. Não o segui à risca mas fica aqui o registo.]

O resultado não pode ser grande coisa quando centramos a tese de um texto num título de um livro que não lemos. Mas há cerca de um ano quando o Seminário Teológico Baptista de Queluz me convidou para uma sessão em que falasse da minha apreciação sobre os portugueses e a religião senti abrigo no que José Gil tão bem sintetizou acerca de nós na frase: “Portugal, hoje - o medo de existir”. Apesar da Providência ainda não me ter permitido um contacto com a teoria central de Gil no seu volume, houve um eco imediato na Bíblia.
Ora nas Escrituras a timidez não aparece como feitio mas defeito. No texto do Evangelho de Marcos 4:40 Jesus está a bordo de um barco que sobrevive com dificuldade a uma tempestade no mar. O que faz ele durante o temporal? Naturalmente dorme. Não queiramos imaginar o cansaço de alguém que é Deus e homem ao mesmo tempo. É uma coisa sobrenaturalmente séria e não é qualquer onda que a interrompe. Naquela ocasião já os discípulos estão em pânico quando forçam que o seu Mestre faça alguma coisa além de dormir. Jesus desperta, repreende o vento e diz ao mar: “cala-te, aquieta-te.” E o vento aquietou-se e houve grande bonança. O Filho de Deus ralhou aos elementos e censurou os discípulos: “Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé?” Na Bíblia a timidez é uma falha de convicção em Deus. Podemos ir mais longe: na Bíblia é uma falha de carácter se partirmos da convicção que Deus existe. Se a realidade está sustentada em Deus então a timidez é uma alienação cognitiva. Por isso o texto mostra Jesus possivelmente mais irritado com os homens do que com as condições metereológicas.
O dicionário que consultei dá-nos uma definição mais livre de conotações religiosas: falta de desembaraço e acanhamento. E isto pode sublinhar a ideia de Gil, de um País pouco aberto ao exterior, pouco desenvolvido (e desenvolto) e de fraca dinâmica interna. Se isto for algo possível de generalizar acerca dos portugueses é, na minha opinião, absolutamente justo de generalizar quando à atitude dos portugueses face à religião.
Uma das relações mais difíceis de resolver para um cristão evangélico em Portugal é com o Catolicismo. Afinal mesmo que a nação já não registe os abismais noventa por cento de há uma década, o certo é que um cristão evangélico quando se apresenta tem neste País de rapidamente clarificar que não é da IURD, não é Testemunha de Jeová e não é Mórmon. Ou seja, numa enorme quantidade de pessoas a simplificação ainda passa por: ou se é católico, ou se é ateu, ou se é de uma seita. É árduo para um evangélico relacionar-se com o Catolicismo quando o Catolicismo ainda parece deter o monopólio nacional do que pode ser uma religião respeitável. E isto pode levar a que muitas vezes os evangélicos acabem em simplificações tão injustas quanto as que sofrem, sendo cegos para o facto de também o Catolicismo passar hoje por algumas experiências de discriminação. Este País já não é assim tão a preto e branco.
Veja-se o caso do Catolicismo na comunicação social. As vozes católicas que na generalidade são mais toleradas na comunicação social aparecem sancionadas por não serem assim tão católicas. Os Padres que escrevem no Público ou no Diário de Notícias são aqueles que conseguem fazer uma carreira escrita de serem católicos que criticam o Catolicismo. Por outro lado, um dos sinais de maior vitalidade do Catolicismo cresce hoje em Portugal por uma serena mas concretizada reconquista estética. Não foi casual que quando Bento XVI esteve há três anos connosco animou a Igreja a um anúncio que apelasse à beleza. Num País tímido o que é belo pode compensar mais do que é verdadeiro.
No caso do cristianismo evangélico, pela sua própria dispersão e pequenez estatística, talvez seja mais complicado sugerir uma perspectiva consistente (até porque sou evangélico). Mas diria que aquilo que foi outrora uma fidelidade essencialmente fundamentalista é hoje uma abertura a namoros mais progressistas. Os cristãos evangélicos, que até nasceram em Portugal com uma experiência de intervenção na imprensa escrita, passaram as últimas décadas em retirada da cultura. Hoje, na ânsia de recuperarem algum tipo de relevância, tentam reorganizar uma voz sua, que estabeleça uma ponte entre os seus modelos estrangeirados (aqueles que nos evangelizaram eram sobretudo americanos e brasileiros) e os do nosso próprio País. É complicado porque um evangélico é em Portugal um semi-português na melhor das hipóteses. Talvez isso o faça oscilar entre uma residual timidez patriótica e um descaramento artificial que lhe chega de fora.
Por último, vale a pena dar uma palavra acerca do universo não-religioso, pelo menos no modo como e relaciona com o universo religioso. É costume dizer que nas sociedades ditas pós-religiosas o mais difícil não é a hostilidade contra a fé mas a indiferença. E não é injusto dizê-lo. Por exemplo, o filósofo ateu do momento é um homem que suavizou a veemência de Dawkins, Hitchens ou Harris. Alain de Botton dizia que o mais desinteressante que poderia ser discutido acerca de uma religião era saber se era verdadeira. Provando que a indiferença foi elevada a superação filosófica e que o compensa é pensar sem tirar consequências. No caso português, diria que essa indiferença já existe mas que ainda assim perde para a timidez. Claro que fundamento em boa parte a minha convicção na minha experiência pessoal (e não há nada como ter passado a última década com responsabilidades eclesiásticas junto de vizinhos de fé desconhecida). Os condóminos que partilham residência junto a igrejas evangélicas só com dificuldade conseguem aplicar-lhes a palavra igreja. Quantos de nós, cristãos evangélicos, não somos questionados se cremos em Cristo? Claro que podemos dizer que o problema se resume a ignorância. Ignorância geral e sobre religião em particular. A minha convicção é, todavia, que a ignorância portuguesa sobre religião é uma declinação dessa condição espiritual de timidez. Dava-nos jeito uma tempestade no mar que acordasse este País litoral.

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Jesus não se senta ao lado direito do Pai a descansar de 33 anos de vida e cerca de 3 de duro ministério. Provavelmente ligamos pouco à ascensão porque ligamos pouco ao que a ascensão implica. E a ascensão implica autoridade.
O sermão de Domingo passado aqui.

Na nossa casa quem abre a porta são os mais pequenos.

Duzentos

Vergonha: fez 200 que Kierkegaard nasceu e eu calado como um rato. Não é exagerado dizer que houve tempos que Kierkegaard era uma espécie de santo padroeiro deste blogue, uma presunção mas sincera. Até porque nos primeiros tempos dos blogues Kierkegaard era um nome relativamente pouco evocado (a rigor, continua a ser). Talvez também por isso, era fácil para mim tentar colar a dispersão das coisas que escrevia a um travo diarístico que seguia nos próprios Diários do dinamarquês (livro que comprei há perto de 10 anos, que está na mesinha de cabeceira e que ainda não acabei de ler).
Há um cliché acerca de Kierkegaard ao qual é difícil escapar: é um filósofo fácil de gostar quando somos adolescentes (este texto é talentoso a falar disso). Mas Kierkegaard faz muito mais do que desconversar, um dos hábitos que em boa parte dos pós-modernos passa frequentemente por filosofar. Não nego que curtia que fizesse pouco da complexidade inchadona do Hegel, que malhasse sem intervalo nos confortos da Cristandade e que nunca tenha ultrapassado o desgosto amoroso da juventude. Nestas três coisas, e apenas para comparar, diria que hoje continuo a curtir malhar em metafísica alemã (sobretudo quando vem em forma de liberalismo teológico), passei a ser menos dado a curtir críticas genéricas à Cristandade (por achar que num mundo dito pós-religioso é muito ténue a diferença entre malhar na Cristandade e malhar no Cristianismo), e ganhei francamente pouca pachorra para os desgostos amorosos (é aquela parte que, reconheço, me custa hoje quando leio Kierkegaard - dá vontade de dizer-lhe: man, get over it!).
Mas mantem-se o meu amor pelo filósofo dinamarquês. Amo o seu existencialismo calvinista (que é a minha maneira de descrever que a subjectividade só interessa quando tira rendimento da nossa relação com Deus, a outra é pura e simplesmente narcisista e enfadonha - e não podia ser mais indiferente aos elogios que Kierkegaard recebe por supostamente ser o primeiro filósofo existencialista - estou convencido que Kierkegaard não suportaria a auto-comiseração niilista que lhe reclama herança). Amo a sua radicalidade devocional (tudo tem a ver com Deus e o que não tem a ver com Deus, esquece). Amo a sua embirração com o artifício escolástico (se a religião começa a ficar demasiado lá em cima não vale a pena). Entre outras coisas. Kierkegaard merecia que esta data tivesse sido comemorada condignamente. Com, pelo menos, um jantar em que todos os presentes levassem calças curtas, uma fotografia de uma ex-namorada para queimar e uma Bíblia. Será que ainda vamos a tempo de o fazer mesmo que atrasados?

Sejam pacientes com a minha nota paternalista: eu já sabia tudo o que este vídeo transmite quando fiz deste miúdo o meu baixista em 2010. Agora tento contentar-me em limpar-lhe o pó das sandálias.

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Se queremos testar o nosso amor por Jesus não é preciso teorizar muito, apenas obedecer-lhe.
O sermão de Domingo passado aqui.

A inconsequência de “Incondicional?”

A partir de quantos exemplares vendidos podemos dizer que um livro é sensação entre os evangélicos portugueses? Talvez quando passa a chegar a não-evangélicos mas nesse caso estávamos a falar de um Planeta pouco habitado porque nos últimos anos só me lembro de um (“A Cabana”, uma coisa tão massivamente aplaudida quanto apalermada). Talvez uma resposta mais prática seja dizer que um livro é sensação entre os evangélicos seguramente quando a edição em português consegue trazer impressas as recomendações de pastores estrangeiros mas também de pastores portugueses.
A Letras de Ouro tem feito um trabalho notável. Em meia-dúzia de anos rompeu o tédio das editoras institucionalmente ligadas às denominações evangélicas para lançar no mercado evangélico e secular (os livros das Letras de Ouro estão nas livrarias habituais) títulos que vão desde a Teologia, ao infantil, passando pelo mui-meritória ficção religiosa nacional. A Letras de Ouro parece-me a única editora evangélica portuguesa que quer os seus livros lidos mas também falados. Sou parcial porque já tive o privilégio de participar no lançamento de um livro da Letras de Ouro e porque tenho desenvolvido uma grande admiração pela editora e pelo Pedro Martins que a conduz.
Parte do sucesso da Letras de Ouro tem sido um investimento sério nos livros que edita, destacando-se provavelmente “Incondicional?” de Brian Zahnd. Quando foi lançado no ano passado mereceu um evento próprio que juntou os pastores eminentes que o recomendam. Isto é tão raro, lançar oficialmente livros estrangeiros, como relevante. Mostra que mais que há uma estratégia além de simplesmente despejar nas prateleiras das lojas. Também por esta razão “Incondicional?” merece louvor. Faz parte de uma editora com uma filosofia e, parece-me, tem atingido com distinção os seus objectivos. A prova é que ainda há poucas semanas a Letras de Ouro trouxe a Portugal Brian Zahnd para uma campanha que entusiasmou os leitores que desde há um ano lhe podem ler este título. A Letras de Ouro está a mostrar como é o futuro quando se trabalha bem.
Creio que outra razão do sucesso de “Incondicional?” passa pelo seu assunto. O livro dedica-se ao tema do perdão e não há muitos assim. Uma das reacções mais comuns à sua leitura tem sido perguntar como é que um tema tão essencial ao cristianismo ande longe da reflexão dos cristãos. O que me parece uma generalização justa. Falando apenas na minha experiência recente, têm sido poucas as oportunidades de ir mais fundo. Quando há cerca de um mês falava do texto de Colossenses que íamos tratar no sermão, acerca do perdão, o Pedro Martins sugeriu-me a leitura do livro, que prontamente me facilitou. Estou-lhe agradecido.
“Incondicional?” atinge com distinção o objectivo de alarmar para o seu tema. “Se o cristianismo tem a ver com alguma coisa é com o perdão” avança logo à página 15. E seria perfeito se nessa mesma página inicial não mostrasse logo que neste livro o grande trunfo anda lado a lado com a sua grande derrota. A primeira frase de “Incondicional?” é a do seu próprio epitáfio, um prenúncio de que a óptima tarefa do autor fica imediatamente comprometida com a simplificação violenta em que assenta: “O Cristianismo ocidental precisa de uma actualização.” Ou seja, num assunto em que valia a pena aprofundar “Incondicional?” vai preferir o tal alarme e escolher buzinar em vez de explicar. Claro que entendemos a preocupação de Zahnd: ele crê que o Cristianismo ocidental precisa de ser actualizado porque anda a esquecer o perdão. E não é uma tese necessariamente absurda mas torna-se mais difícil de compreender quando o seu detentor se mostra mais perturbado pela fé dos que o cercam do que disposto a fazer pedagogia acerca dela. “O que hoje passa por mensagem cristã surge como algo de decrépito e desgastado” escreve ainda na tal primeira página 15 com aquele tom algo alucinado dos fundadores de novas religiões que começam sempre de declarar óbito às antigas. Com isto não digo que Zahnd tem esse propósito mas que lhe usa o tom, usa. No que diz respeito ao modo como escreve, Zahnd alienou-me às primeiras linhas. Mas insisti. Não devemos julgar um livro pela sua capa e pelas suas primeiras linhas, quis pensar.
Zahnd arranjou um dispositivo que aplica quase sem excepção ao longo dos dez capítulos: conta uma experiência extrema de perdão (vítimas do Holocausto confrontando-se com nazis, João Paulo II perdoando o turco Agca, Nelson Mandela, uma cristã amish perante um massacre na sua comunidade, entre outros) e a partir daí coloca-a em contraste com o cristão predominante no mundo Ocidental. Em jeito de ilusionista amador proclamando “now you see, now you don’t” - os exemplos-choque mostram perdão, todos os outros do “Cristianismo sub-padrão pós-Constantino” não (esta designação é todo um programa ideológico de caricatura histórica). Para além de ser um dispositivo intelectualmente raso não evolui ao longo do livro. Ou seja, ficamos à espera que o raciocínio siga para as suas implicações mas Zahnd recusa sair do conforto do seu maniqueísmo.
Dou alguns exemplos deste maniqueísmo: se estamos a falar de perdão podemos perguntar acerca do seu alcance. De como se vai aplicar o princípio que se enuncia. Como deve relacionar-se a prática que os cristãos fazem do perdão com o modo como vivem em sociedade? Zahnd menciona Agostinho e a Guerra Justa mas fá-lo em apenas três linhas (pág. 135). As certezas que tem acerca do malefício dos comentadores norte-americanos conservadores (Ann Coulter, Sean Hannity e Rush Limbaugh, na página 184) é feita com a mesma determinação com que não ousa ir mais fundo em qualquer sugestão consistente de como o perdão da igreja se deve relacionar com a justiça da polis. O sermão do monte, que Zahnd declara como a obra máxima de Jesus (por que escolher o sermão do monte e não qualquer outro discurso de Jesus?) e que diz ser esquecido pelos intelectuais do cristianismo ocidental (Zanhd não deve morar no mesmo Ocidente que eu), pode ser pura e simplesmente aplicado aos sistemas judiciais dos cristãos? O autor defende a amnistia como uma disposição genérica para o juízo? Como se processará a relação entre Estado e Igreja? Zahnd defende o quê concretamente em relação a estas questões? Por que é que quando refere Bonhoeffer a criticar justamente a apatia da cristandade europeia não refere também que Bonhoeffer foi condenado à morte por ter participado numa tentativa de assassínio de Hitler? Não deveria Bonhoeffer simplesmente perdoar Hitler? Se o perdão incondicional é a marca de água do cristianismo então como relacioná-lo com a existência do Inferno? Se “o caminho de Jesus é sempre a via do perdão” (como afirma repetidamente) então como devemos lidar com todos os textos bíblicos que afirmam que Jesus voltará para julgar os vivos e os mortos? Quererá isso dizer que Jesus perdoará toda a Humanidade e que ninguém será condenado? Será que o perdão aplicado indiscriminadamente não redunda em pura indiferença? O castigo é incompatível com o perdão? A morte de Cristo na cruz significa que Deus leva a justiça a sério ou que simplesmente abdica dela num mundo em que todos falham? Estas foram apenas algumas perguntas que me ocorreram e que o livro não me respondeu ou respondeu debilmente.
Termino notando o que Brian Zahnd nunca perdoa ao escrever “Incondicional?”: o status quo (expressão que enxameia todo o volume e que desisti de contar o número de vezes que ocorre), o pentecostalismo no qual cresceu, o país ao qual pertence (os EUA). Pelo menos com estes três o autor parece não querer aplicar o remédio que apregoa. Eu, que não sei se à vista de Zahnd poderia ser visto como pertença do status quo, que não sou pentecostal mas baptista, que não sou americano mas português, senti-me parte dos atingidos pela escrita pontiaguda deste apóstolo radical do perdão. Fiz questão de me achar na última página mesmo quando me senti perdido à primeira. Aguentei aquele estilo característico de algum pós-fundamentalismo evangélico que agora quer impressionar por citar o maior número de autores não-cristãos (o name-dropping como beatitude no lugar que antes quase só permitia ler a Bíblia). Muitas das queixas de Zahnd serão certamente justas e um combustível válido para procurar respostas maiores do que as que nos ofereceu. O melhor que Brian tem a fazer não é abandonar o assunto do perdão mas dedicar-lhe melhores livros.

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