Voz do Deserto
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Mr. Treetop

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A cama de grades do Caleb

Esta semana trocámos a cama de grades de madeira do Caleb por uma maior e aberta. A emoção dele foi tal que, quando o novo lugar de dormir chegou durante a manhã, transferiu os seus brinquedos para lá e plantou-se voluntariamente no sítio que mais evita até que chegue o primeiro momento de recolhimento obrigatório (a sesta). Se vivêssemos mais a Norte do País, junto a Paços Ferreira – a capital do móvel, poderíamos ter na mudança constante da mobília do quarto dos miúdos a solução para o problema de não quererem deitar-se. Ou isso ou eu tomar o assunto nas minhas mãos e tornar-me carpinteiro. Afinal também foi a profissão do Senhor.

Falo sobre a cama de grades de madeira do Caleb porque acredito que pode ser uma imagem da tarefa de educação dos meus filhos. O Caleb vai fazer três anos em Maio e não me importava que todos os desafios futuros da sua educação se resolvessem com a facilidade com que se troca de cama. Seria um sinal de que pouco mais me seria exigido do que acomodá-lo em lugares à medida do seu tamanho. Uma questão de fita métrica e caixa de ferramentas. Nessa perspectiva educar um filho seria sobretudo um exercício de contê-lo no espaço apropriado. Ora, acho que parte da educação que devo dar-lhe passa também por isto (e os Céus conhecem as dificuldades que por vezes tenho em conter o meu Caleb), mas vai além. Muito além.

Tenho estado a escrever falando apenas em mim e no Caleb. Mas a minha família tem mais a Ana Rute, a minha mulher. O casamento tornou a conjugação do verbo no singular numa realidade colectiva (quando falo em mim, falo em mim e na Ana Rute). E a minha família tem mais a Maria. A Maria vai fazer 9 anos em Maio. E a minha família tem mais a Marta. A Marta vai fazer 7 anos em Novembro. E a minha família tem mais o Joaquim. O Joaquim vai fazer 6 anos em Novembro. E acho que estão todos (pelo menos hoje quando saí de casa éramos seis ao todo, acho). Resumindo, tenho algum trabalho pela frente no que diz respeito à educação dos meus filhos.

Deixem-me mencionar uma dimensão negativa da educação dos filhos, a partir da figura da cama de grades de madeira do Caleb. Por pouco atraente que soe, os pais também são chamados a colocarem os filhos em lugares que os isolem do mundo exterior. Da mesma maneira que a cama de grades de madeira serve para impedir que o Caleb caia dela, somos chamados a educar os nossos filhos impedindo-os de estarem em lugares nos quais ainda não têm maturidade para andar. Sei que hoje estamos todos um bocadinho inclinados para gostarmos de ser os pais que confiam no discernimento dos filhos mas a verdade é que a Bíblia antes de nos ensinar a confiar no discernimento dos nossos filhos assusta-nos para a tarefa de lhes passarmos algum. E é impossível ser bom pai sem proibir. Por amar o Caleb é que também lhe coloco grades na vida.

Mas, graças a Deus, a educação dos filhos tem uma dimensão positiva. Muito positiva. Como explicar o orgulho meio tolo de apreciar o primeiro sono do Caleb na cama sem grades? Como justificar que o meu peito tenha inchado na primeira manhã em que chegou junto a mim tendo saído da cama pelo seu próprio pé? O sabor de vitória nos meus lábios fez daquela caminhada do meu mais pequeno uma maquete do momento em que, se Deus permitir, há-de tirar a carta de condução. Somos também chamados a educar os nossos filhos permitindo-lhes irem a lugares onde nunca andaram antes. E nessas ocasiões sabemos que podemos confiar no discernimento dos nossos filhos porque, pela graça do Senhor, conseguimos passar-lhes algum. E é impossível ser bom pai sem permitir. Por amar o Caleb é que também lhe retiro grades na vida.

Não é casual que as árvores, que me fornecem a matéria para as camas de grades dos meus filhos, sejam ao mesmo tempo um símbolo da vontade que Deus teve para a sua Criação: o crescimento. E da mesma maneira que o Senhor nos chamou a cuidar da Criação, chama-nos ainda mais a cuidar do crescimento do ponto máximo dela: os nossos filhos. É nele que colocamos a nossa esperança de vermos as nossas crianças darem passos seguros até nos lugares onde tantas vezes os adultos caem.

[Este artigo foi publicado no último número da Revista Lar Cristão.]

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No cristianismo falar da fé não é uma questão de génio mas de genuflexão. O sermão de Domingo passado aqui.

Uma mulher a pôr os homens em ordem na Igreja

Eu é que andei distraído. Ler Dorothy Sayers pela primeira vez aos 35 anos é daquelas coisas que pura e simplesmente não devia ter perdão. Mas finalmente deitei mão a “Letters To A Diminished Church” que colecciona textos sobre o cristianismo. Como o próprio título indica, a mensagem agregadora é precisamente essa, da necessidade da Igreja se deixar de delicadezas que a enfraquecem. Dorothy Sayers é daquelas escritoras que reclama mais virilidade para a fé. Ou seja, é uma mulher que também quer que os homens sejam homens. É impossível não querer ouvi-la.
Dorothy Sayers tem muito em comum com amigos dela. Respirou do cachimbo de C.S. Lewis e bebeu da cerveja de Tolkien. O que significa que também recebeu parte da herança de Chesterton. Por isso pratica a mesma modalidade de defesa do cristianismo em regime de imaginação e intrepidez. Com estes britânicos não há um único segundo de tédio. O leitor fica simultaneamente mais devoto e divertido.
Nestes 16 textos há uns quantos que se destacam. “The Dogma Is The Drama”, “Creed Or Chaos?” e “Why Work?” são provavelmente os meus preferidos e passam pela centralidade  e criatividade da doutrina, pelas consequências irracionais de uma sociedade sem credo, e pelo sentido e sabor do trabalho. São assuntos que tanto assustam descrentes quanto crentes. Aliás, na escrita de Sayers há uma revolta maior com os cristãos preguiçosos do que com os pagãos cépticos. Talvez porque Sayers escreve primeiramente para quem não está a ir à igreja ao Domingo. Não está interessada em pregar ao côro.
Dorothy Sayers construiu a sua carreira a escrever sobretudo histórias de crime. Porque é cristã no território do diabo faz-nos lembrar Flannery O’Connor. Usa um tipo de humor semelhante tão leve quanto grave. Que pode fazer as primeiras baixas precisamente em cristãos sem graça nem volume. “If the pious are the first to be shocked, so much worse for the pious - others will pass into the kingdom of heaven before them (…) Surely it is not the business of the Church to adapt Christ to men, but to adapt men to Christ.” Mas sem dúvida fará baixas também entre os ímpios. “It is a great mistake to present Christianity as something charming and popular with no offense in it. Seeing that Christ went about the world giving the most violent offense to all kinds of people, it would seem absurd to expect that the doctrine of his person can be presented as to offend nobody.” É melhor vestirmos os coletes à prova de bala.
Descobri na internet uma imagem de Sayers onde surge graficamente canonizada. Apesar de ser Protestante (e Sayers também, era anglicana) não me parece mal esta iconografia. Até merecia um lugar privilegiado numa parede de nossa casa. Sinto-me refrescado à sua sombra.

We're Not Portugal: Homosexual marriage is oppression on gays

werenotportugal:

The first reason why I’m against the so-called homosexual marriage is a christian one: marriage in the eyes of God happens only between man and woman. But there’s a non-christian reason to why I’m against homosexual marriage: marriage between a man and a man or between a woman and a woman forces…

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Dorothy Sayers dizia que se os pastores se refreiam de dizer coisas que podem ser mal entendidas então vão acabar a nunca dizer alguma coisa que valha a pena ouvir. O prazer desta igreja também está no perigo que ela abraça.
O sermão de Domingo passado aqui.

História Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo

[Full disclosure: sou amigo do Henrique Raposo. Lê-lo de coração aceso não deve impedir-me, ainda assim, de ter a cabeça ligada.]

Quando estive no lançamento da “História Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo” levávamos os miúdos e por isso o tempo teve de ser dividido entre tomar conta deles na secção infanto-juvenil e tentar escutar alguma coisa da apresentação do livro. Talvez por causa disso não consegui sentir-me muito atraído pelo que os convidados disseram, que me pareceu um bocado fechado nos debates internos da ciência política. Mas cravei o livro ao Henrique porque o Henrique não escreve para aquecer. Ou seja, não é preciso ser sociólogo ou historiador para perceber que quando o Henrique pensa, quer ir a algum lado.
O Henrique aproveitou o formato curto (e muito bem esgalhado pela Guerra & Paz para esta colecção) para uma reflexão sobre o nosso Século XX. Traz cinco teses que apresenta de uma maneira razoável (isto é, com factos). Bem sabemos que apresentar teses de maneira razoável (isto é, com factos) é hoje um desporto tão radical quanto suspeito diante daquilo que me parece ser a Academia (se podemos em paz de consciência chamar Academia aos nossos pensadores fica para outra ocasião). E, aqueles que já conhecem o Henrique, sabem que isso não o dissuade. Pelo contrário, diverte-o. Por isso a adicionar ao facto do Henrique apresentar teses de maneira razoável está o de o fazer com divertimento. O que me parece duas excelentes razões para ler livros. Neste domínios o Henrique anda meio sozinho, creio. O que o destaca.
Salazar não era uma criatura da igreja. Portugal não precisou de Mário Soares para entrar na Europa. Os portugueses ficaram mais ricos durante o Estado Novo. A esquerda também era colonialista. Álvaro Cunhal venceu. Estas são as cinco teses que o Henrique apresenta aparentemente como provocação, na convicção que são prováveis (que se podem provar, não que têm probabilidade de acontecer). No meu caso, destas cinco teses apenas a primeira e a última me seriam familiares, não porque estudei os assuntos mas porque basta ser Protestante em Portugal para entender que a relação do Estado (seja novo ou velho) com o Catolicismo tem mais de conveniência que de convicção, e porque basta não ser de esquerda em Portugal para entender que o poder de Cunhal não precisou de ser político porque se tornou, na imaginação das pessoas, moral. Mas mesmo nestas duas teses aprendi que me fartei. Quanto mais nas outras nas quais era ignorante.
Por último, o Henrique aponta uma palavra para classificar o percurso de Salazar e de Soares, como as duas figuras essenciais do nosso Século passado. Esta palavra revela o talento do Henrique, porque mostra que estudar serve para apresentar teses de maneira razoável (isto é, com factos) mas também para compreender. Quando o Henrique classifica o percurso de Salazar e de Soares com a palavra ambiguidade mostra, a meu ver, que compreendeu bem estes homens mas que compreendeu bem este País. Mais dois ou três Henriques a explorarem o tema da ambiguidade portuguesa e eu prometo que começo a interessar-me por ciência política.

pedrolourenco:

(…) e sempre, desconhecendo-nos a nós e aos outros,e por isso entendendo-nos alegremente, passamos nas volutas da dança ou nas conversas do descanso,humanos, fiteis, a sério, ao som da grande orquestra dos astros, sob os olhares desdenhosos e alheios dos organizadores do espectáculo. BERNARDO SOARES, in O LIVRO DO DESASSOSSEGO

pedrolourenco:

(…) e sempre, desconhecendo-nos a nós e aos outros,e por isso entendendo-nos alegremente, passamos nas volutas da dança ou nas conversas do descanso,humanos, fiteis, a sério, ao som da grande orquestra dos astros, sob os olhares desdenhosos e alheios dos organizadores do espectáculo. BERNARDO SOARES, in O LIVRO DO DESASSOSSEGO

Forma de Vida

A Forma de Vida é uma revista online esplêndida. Desde o nome, à aparência, ao conteúdo. Junta nomes como a Carla Hilário Quevedo, o Miguel Tamen, Abel Barros Baptista, entre outros. Foi-me dado o privilégio de participar no número 2, acabado de sair. Escrevi a partir de um texto do primeiro número pelo Alberto Arruda. Fui atrás dele continuando a falar de Mateus 26, quando Pedro trai Jesus.

O triunfo de Jesus pede a presença de algumas derrotas. E a derrota presente nesta traição de Pedro (que permite um eco mais subtil mas também mais chocante da outra traição anterior, de Judas) mostra que traem os maus mas traem os bons também. É igualmente por isso que a salvação de Jesus é graça e não apenas conquista por uma mera demonstração de poder divino sobre-humano. Porque os melhores discípulos fazem coisas parecidas com as dos maus discípulos. O cristianismo ajudou o mundo a compreender que a primeira democracia é a da infidelidade.

Vão até e usufruam da Forma de Vida.

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Se a nossa experiência do amor não passa também pelo perdão é provável que seja completamente estranha ao amor que a Bíblia fala.
O sermão de Domingo passado aqui.

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