
Quatro empregos que a Bíblia conta e que, na sua aparente estranheza, podem ajudar-nos a olhar para o nosso pensando que Deus está interessado no assunto.
1. Para todos os efeitos, e mesmo que a primeira carreira tenha sido o ar calmo e beato da pastorícia, David foi Rei. Governante, Presidente, Estadista. E também soldado. Alguns dos Salmos são a prova que em muitas horas de serviço David não descortinou grande sentido na sua carreira. Antes pelo contrário. Como seria possível que semelhante distinção profissional acarretasse tal avalanche de problemas? Uma das partes mais difíceis era ter um emprego que meia volta envolvia pessoas a quererem matá-lo e David, tendo a consciência que Deus está interessado no trabalho dos Seus filhos, limitava-se a confiar. É certo que se queixava, que barafustava e que aqui e ali descambava mesmo em auto-comiseração. Mas a sua carreira exigente permitiu-lhe também a reputação do Rei judeu mais popular de sempre e de um dos maiores poetas de toda a História. Deus estava interessado na profissão de David. E David percebia-o.
2. Obadias, mordomo de Acabe e Jezabel (não confundir com o profeta Obadias). Basicamente Obadias organizava a casa dos piores reis de toda a Bíblia. Quando Jezabel começou a sua campanha de paganização e mandou matar os profetas, Obadias abrigou e escondeu cem deles em duas cavernas alimentando-os. Obadias era um homem de Deus trabalhando com monarcas do Diabo. Quando se encontra com Elias, provavelmente o profeta mais heróico do Velho Testamento, precisa de lhe explicar que é difícil trabalhar naquela empresa mas até aí era possível ser fiel a Deus. Aconselha alguma calma a Elias pelo risco de vida que ele próprio, Obadias, corria. A Palavra parece demonstrar que os dois tipos de fidelidade a Deus eram possíveis a partir destes dois homens: o do homem que tem o emprego numa companhia conduzida pela malícia da mulher do patrão, e o do activista corajoso que denuncia a corrupção dos governantes. Deus estava interessado na profissão de Obadias. E Obadias percebia-o.
3. Lídia trabalhava na indústria da moda. É certo que haverá diferenças entre a venda de púrpura de então e o mercado de alta-costura de hoje mas a relação existe. Lídia era um exemplo de empreendimento (ou como hoje gostamos de dizer de uma maneira meio saloia, uma entrepreneur). Converte- se quando ouve a pregação de Paulo na sua cidade, em Filipos. E apercebemo-nos que rapidamente a sua casa se torna um centro de adoração e estratégia missionária. Lídia torna-se um exemplo de iniciativa e ousadia de testemunho, possivelmente em meios que temos como pouco inclinados para a fé. Deus estava interessado na profissão de Lídia. E Lídia percebia-o.
4. Onésimo. Onésimo é um escravo que foge do seu senhor, Filemón. Entretanto Onésimo converte-se através do testemunho de Paulo e Paulo resolve escrever a Filemón, que também era cristão, apelando ao perdão. Calculamos que não deve ser fácil ser escravo (embora as condições da escravatura na Antiguidade concediam algumas liberdades cívicas assinaláveis) mas o facto é que a partilha da fé do senhor de quem tinha fugido não assegura que Onésimo passava a ficar livre da antiga responsabilidade. Paulo tem de pedir. A carta incluída no Novo Testamento não nos dá os detalhes do desfecho. Mas aponta que até para um emprego escravo seria necessário demonstrar fidelidade à autoridade. Deus estava interessado na profissão de Onésimo. E Onésimo percebia-o.