Voz do Deserto
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Trabalhando para depender

Simone Weil dizia que não conhecia lavradores ateus. Porque as pessoas que mais dependiam da sua força para trabalhar na terra sabiam que ao mesmo tempo dependiam também de outra força sobre a qual não dominavam. Num mundo de publicitários e informáticos a tendência é, ainda que inconscientemente, sentir que o nosso trabalho é um ciclo que se completa dentro do nosso próprio controlo. A ideia de depender de factores externos frustra-nos. Perante qualquer adversidade provocada por outros é o próprio sentido da nossa vocação que fica colocado em causa. O agricultor cansava-se mas via o fruto. O operário cansa-se e só vê uma pequena parte do processo de produção. Naturalmente, o velho cansaço físico do homem que trabalha na terra é mais produtivo que o cansaço da ausência de horizonte pós-industrial. Os antigos iam para a cama arrasados. Nós vamos para a cama deprimidos.
O Cristianismo, que não precisa de combater o progresso tecnológico, ensina que somos criaturas dependentes. E que isso é uma bênção. Muitas vezes a nossa infelicidade laboral é o resultado de aspirarmos à auto-suficiência. Não dá para ser um bom adorador ao mesmo tempo que nos fingimos de deuses. Ironicamente, o melhor profissional é aquele que se sente privilegiado por participar. Da mesma maneira que Deus convidou o homem para dar nomes aos animais. O pior profissional é o que se acha insubstituível. Deus mete-lhe um elefante à frente e ele queixa-se do tamanho das orelhas.

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