Voz do Deserto
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Criatividade e humildade

Há um provérbio que diz que “só trabalha quem não sabe fazer mais nada”. Não vem na Bíblia, tresanda a chica-espertice mas talvez nos sirva para alguma coisa. Quando Jesus visita a casa de Marta, Maria e Lázaro, três irmãos, Maria fica sentada a ouvi-lo enquanto Marta trabalha sem parar. Sabemos que Marta se queixa da passividade de Maria e que Jesus, algo inesperadamente, esclarece que de facto Maria escolheu “a melhor parte”. Não por ser espertalhona mas porque genuinamente queria aproveitar todos os momentos com o Mestre. A partir desta história não faltam sociólogos que dizem que os Católicos imitam Maria na sua contemplação, e os Protestantes Marta na sua hiper-actividade. A simplificação não deixa de ter graça e ser útil para ganharmos perspectiva sobre nós próprios.
Ter uma relação cristã com o trabalho e o descanso é tão mais difícil pelo facto de crermos que no Céu os esforços são desnecessários. Darmos por nós a acreditar que aqui o trabalho tem de ser mais suportado que saboreado não é difícil. Ainda mais num contexto onde nos impacientamos esperando uma espécie de Paraíso na Terra chamado “realização pessoal” (os Céus sabem como tenho vontade de partir para a violência quando ouço as pessoas a falar sobre realizarem-se pessoalmente - mas Deus dá-me calma). Quando os cristãos acreditam que o trabalho é bom não é porque enquanto o praticamos nos conhecemos melhor (e toda essa metafísica narcisista de “nos descobrirmos a nós próprios”, “nos superarmos” ou “transpormos os nossos limites”), mas porque conhecemos melhor Deus. Trabalho é Teologia. Essa operação é da mais pura criatividade (Chesterton que dizia que Deus era uma criança contente com uma brincadeira que acabara de inventar ao dar ordem ao sol para que se levantasse). Ao mesmo tempo que pedagógica para nós, chamados a concordar com a qualidade da criação de Deus sem termos a patente da invenção. Se a criatividade nos faz arriscar, certamente o louvor ao Criador nos oferece humildade.
No meio destes cinco textos trapalhões, eu diria às duas queridas pessoas da minha congregação de SDB que me pediram para ser mais convincente sobre o assunto do trabalho: os nossos empregos, por mais chatos que sejam, são a prova que Deus nos deseja criativos e humildes.

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