
Entre tanta gritaria de fregueses esta semana trouxe dois relatos preciosos sobre a nossa condição humana mais básica. É compreensível que as pessoas que se tenham emocionado com o texto do Miguel Esteves Cardoso de segunda-feira não reajam com o mesmo à-vontade ao de ontem, quinta. Uma coisa é a dor, outra coisa é tratar da dor com Deus. No meio da heterodoxia da carta do MEC a Deus há uma compreensão assombrosa e certeira daquilo que Ele é e que, por consequência, pede de nós. O Miguel entendeu perfeitamente o Deus da Bíblia que espera que O amemos e louvemos acima de todas as coisas. Vejo no Miguel aquela mistura complicada de rebeldia e submissão que faz parte da história de qualquer verdadeiro adorador (as personagens bíblicas com mais intimidade com Deus previamente lutaram com Ele). Como cristão sinto que a disciplina mais indicada nestas ocasiões é “chorar com os que choram” e a oração. No entanto encontro num texto breve que a Helena Sacadura Cabral escreveu depois do funeral do seu filho, Miguel Portas, o melhor que intelectualmente podemos sentir nestas ocasiões. Quando diz que “entregou-o nas mãos de quem o emprestou” recorda-nos que amar os nossos queridos que partem é um reconhecimento de uma história maior que nós próprios. Que a tristeza possa ser vivida em simultânea gratidão é uma lição que a Helena nos relembra e que deve permanecer.