Voz do Deserto
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Deus, a Biografia

A maneira que os americanos têm de publicitar um livro não é muito diferente da maneira que têm de publicitar um filme. Daí que é possível pegar num volume e, passando os olhos pelas citações dos críticos impressas na capa, ficar com a mesma sensação que temos depois de vermos um trailer muito eficaz. “God, A Biography” de Jack Miles vem com um distinto “Winner Of The Pulitzer Price” e remata com a sentença derradeira do New York Times: “A scintillating work of literary scholarship that will forever color, if not donwright alter, our conception of the Bible as a work of art… Dazzling.” O leitor mais sugestionável, como eu, fica imediatamente esmagado pela culpa de ainda não ter lido o que só agora acaba de conhecer (a boa publicidade é habilidosa com o remorso). Neste caso, como foi possível estar desde 1995 ignorando este título? Valeu-me o meu fiel amigo e companheiro, Luís de Sá, a estudar nos Estados Unidos para ser um ministro católico, que me ofereceu um exemplar por ocasião da minha Consagração ao Pastorado.
Jack Miles propõe-se apreciar o Velho Testamento (a Bíblia Hebraica, para sermos mais exactos) de uma perspectiva puramente literária. Procura a personagem principal, Deus, para compreendê-la ao longo de toda a acção dos diferentes textos que compõem o cânone. Vai partilhando as suas impressões e tentando descrever a figura, o Criador, nos seus triunfos e percalços. No nosso tempo é mais atraente chamar a atenção para o Senhor a partir de uma observação descomprometida e, nesse sentido, o dispositivo de Miles é terrivelmente competente. Abrir o grande livro sagrado e lê-lo de uma maneira não-sagrada. Toda a aclamação que “God, A Biography” arrebanhou vem da perfeição como mantém esta engenhosa máquina a funcionar. Ler as linhas da Bíblia Hebraica suspendendo o facto daquelas linhas serem a Bíblia Hebraica pode ser para muitos o único modo de relacionamento com a matéria em causa. E é difícil que os fregueses saiam descontentes porque o talento de Jack Miles é irresistível. Até um miúdo crescido nos bancos da Igreja, como eu, se deslumbra com a argúcia dos comentários e com a ironia fina da observação em causa. Com todo o prazer acrescentaria mais um comentário deslumbrado à campanha publicitária que vende “God, A Biography” (e acabo de constatar com surpresa neste momento que o livro já foi editado pela Presença em 1997 - onde tenho eu vivido?).
“God, A Biography” é um exercício mais excelente na opinião do que na ortodoxia. Certamente porque na sua erudição Jack Miles não encontra problemas com muitas teses que são, para um evangélico como eu, problemáticas. Como o próprio autor reconhece, há um risco de psicologização. E uma psicologização fácil redunda em arbitrariedade de mirone. Observar descomprometidamente pode ser divertido mas volta e meia não passa de pura distracção. Quando se olha para Deus como se se olhasse para outra coisa qualquer pode descobrir-se coisas que por vezes a reverência religiosa parece tapar mas, por outro lado, também se pode ficar à mercê da primeira sombra provisória. Quantos de nós não começamos a sentir que os escritores que rejeitam à partida uma teoria prévia acabam teorizando compulsivamente sobre qualquer vírgula? O ponto mais fraco que encontrei em “God, A Biography” é, ao chegar ao fim, calibrar numa leitura muito particular do Livro de Job o núcleo da sua tese. Basicamente Miles afirma que Deus, a personagem principal da Bíblia Hebraica, é imprevisível e algo mutante. Numa espécie de esquizofrenia funcional (um sagrado pós-moderno com que os nossos dias se penteiam embevecidos), a Divindade soma conflitos de personalidade, resultado de um processo antropológico de osmose com outros deuses da zona (babilónicos, persas, etc.). Assim, é claro para Jack Miles que o Deus da Bíblia Hebraica é o Deus que os escritores canónicos mais consciente ou inconscientemente engendraram, tornando-se uma figura única onde o seu final só não termina em tragédia porque a comédia divina o resgata. Para que a teoria de Miles funcione é preciso ler o Livro de Job não terminando com as palavras de arrependimento de Job mas terminando com as palavras de arrependimento do próprio Deus, já um bocado perdido na sua vocação divina. Miles oferece uma argumentação para isso mas, ainda assim, soa algo gnóstica, em jeito de chave leitura resgatada a partir de uma compreensão diferente de uns poucos versículos.
“God, A Biography” é, ainda assim, uma leitura muito recomendável a todos os estudantes da Bíblia. Ler a Bíblia em modo de face-value também faz falta aos que tantas vezes acumulam nos ombros mais a ferrugem que a solidez das boas tradições teológicas. Nessa abordagem algo imediatista é possível sair dos confortos das leituras alegóricas, que suavizam à força as rugas do texto bíblico. “There is always another god to whom, at will, the incompatible may be transferred. It is not so for the devotee of the Lord God. Everything redounds to the Lord’s credit. Everything also redounds to his blame. He has no cosmic opponent but himlsef.” Miles não domestica o Deus do Velho Testamento e isso é notável. Pega-o de caras porque já não dá para evitá-lo. Sentir-lhe o impacto doloroso pode ser o primeiro passo para louvá-lo.

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