Voz do Deserto
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Hermenêutica Retórica de Manuel Alexandre Júnior

Sabem aqueles lugares tão próximos do sítio onde crescemos que acabámos por nunca visitá-los? Os monumentos que vimos quase diariamente que não chegámos a conhecer? Por exemplo, o Cristo-Rei, visitei-o pela primeira vez há uns meses, trinta e quatro anos depois de olhar para ele. O Samuel Úria tem um exemplo melhor ainda: na casa centenária onde cresceu há uma pequena salinha no sótão em que nunca entrou. Não por medo ou reverência. Porque simplesmente nunca lhe apeteceu entrar. Até eu à terceira visita que lhe fiz estive onde ele acabou por não estar. É mais ou menos o mesmo fenómeno que senti até ler “Hermenêutica Retórica” de Manuel Alexandre Júnior. Para a maioria dos Baptistas portugueses Manuel Alexandre Júnior é o Pastor Alexandre, um dos nossos ministros mais insignes. Trabalhou em algumas igrejas espalhadas pelo País mas nas últimas décadas serve a Igreja Baptista da Amadora. Foi Director do Seminário Teológico Baptista (durante todo o tempo em que o frequentei). Simultaneamente é Professor Catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no Departamento de Estudos Clássicos. Talvez por conhecer desde sempre o Pastor Alexandre nunca tinha me dado ao trabalho de ler um dos seus livros, dos quais tinha a noção. Até que há um mês o meu primo Timóteo Cavaco me ofereceu a tal “Hermenêutica Retórica” (da Editora Alcalá que nos deixou tantas saudades). E pensei: é hora, vamos a isso! (Recado para o Sami: por favor entra naquela salinha enquanto podes!)
Se colocamos os termos “hermenêutica” e “retórica” longe dos nossos interesses, vale a pena repensar as distâncias. Falar acerca da nossa relação com um texto é, em último grau, falar acerca da nossa relação com a vida. É isto que acredita toda a gente que se dedica ao assunto, independentemente de poderem chegar às conclusões mais díspares. Quer a Antiguidade Clássica quer a contemporaneidade chamada pós-moderna atribui importância à leitura porque a leitura é parte essencial de nos conhecermos enquanto pessoas vivas. Por alguma razão achamos o analfabetismo um problema. Os cidadãos não morrem à fome por não saberem ler mas vivem pior se não tiverem meio de o fazer. “Hermenêutica Retórica” vale em primeiro lugar por continuar crendo na urgência das letras para uma vida melhor.
É quando começamos a usar palavras como “melhor” que muitos pensadores de agora começam a sentir comichão. E o livro de Manuel Alexandre Júnior está relacionado com essa e outras comichões. “Quando os antigos dizem que a retórica é a arte de bem falar, fazem-no na consciência de que, para se falar bem é necessário pensar bem, e de que o pensar bem pressupõe não só ter ideias e tê-las lógica e esteticamente arrumadas, mas também ter um estilo de vida, um viver em conformidade com o que se crê.” O que aqui está em causa é recuperar uma inteireza que a retórica original promoveu, e rejeitar a visão utilitarista que faz dela uma suposta inimiga da sinceridade. Basta vermos a maneira como a empregamos no nosso discurso corrente, tingida de um divórcio entre forma e conteúdo que transforma pessoas bem-falantes em suspeitos de crimes. Manuel Alexandre Júnior empreende um percurso histórico desde os gregos até à era de todos os pós, sugerindo que ainda é cedo demais para desistirmos de acreditar no sentido de um texto. Pelo caminho sugere uma reflexão pertinente e aguda sobre o casamento fértil de Jerusalém e Atenas (“a fecundação mútua do logos grego e da sabedoria hebraica”), o excesso metafórico da leitura medieval (Agostinho, amamos-te mas tiveste alguma responsabilidade nisto), e a zonzura marrona de agora (é impressionante a capacidade que MAJ tem de apontar debilidades a autores como Derrida sem nunca perder a elegância - eu não seria capaz).
Curiosamente tive acesso a algumas partes do texto de “Hermenêutica Retórica” durante o ano que frequentei a cadeira de Hermenêutica do Seminário Teológico Baptista de Queluz, que o próprio Pastor Alexandre dava. Mas naquela altura faltava-me outra tranquilidade e uma maior resistência aos encantos dos porta-vozes do cinismo reinante que o curso de Ciências da Comunicação da FCSH me dava na Avenida de Berna. Este livro deveria ser obrigatório para todos os estudantes de Literatura e afluentes. Manuel Alexandre Júnior é um autor que deveria ser mais conhecido porque aquilo em que acredita promove a inteligência de todos. Numa época que faz da humildade epistemológica uma passadeira para o absurdo, homens que se colocam perante o escrutínio do sentido deveriam ser mais lidos e ouvidos.

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