Voz do Deserto
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Da Trindade

Comecei a ler “Da Trindade” do Agostinho (não o português dos gatos que não tinha BI mas o santo) e, como podem calcular, quando se faz silêncio até ouço partes do meu cérebro a ranger. Quando se lê o Doutor Africano não há ferrugem que resista. Ele é um verdadeiro professor da Ressurreição, permitindo que largas porções dos miolos mostrem vida quando nem as conhecíamos activas. Como qualquer pessoa que nos faça pensar, Agostinho surpreende não só pelas coisas que nos parecem novas mas também pelo bom efeito que tira das velhas. Ainda vou apenas no primeiro livro (“Da Trindade” compreende 15 livros) mas o impacto já é grande. Hoje, quando terminava umas quantas páginas, saí quase escandalizado por Agostinho tratar a Bíblia como um sítio onde o leitor só deve parar quando encontra sentido. Pensei: afinal o que separa Agostinho de qualquer comum pregador evangélico? Nada, arrisco.
Se como eu tiverem passado algum tempo aprendendo a desaprender, é natural que se torne chocante cada encontro com pessoas que persistem acreditando que aprender é possível. Não quero cansar com o constante ajuste de contas com o meu passado, refrão tão repetido, mas a verdade é que não consigo resistir a esse ritmo. E também não consigo resistir a dançar com a nova batida. Na prática ainda estranho ler pessoas que acreditam no que escrevem porque passei demasiado tempo a ler as outras. Sem dúvida que o Chesterton foi uma tropa de elite de resgate porque os seus paradoxos atraem quem ainda tem medo de algum tipo de sentido fixo. Mas por isso é tão importante, para quem gosta do Chesterton, prosseguir o caminho para o significado dos seus paradoxos quando esse significado deixa de depender do agradável efeito do paradoxo (isto não quer dizer que há um momento em que o paradoxo perde a sua verdade mas que o valor da verdade de um paradoxo é superior ao facto de se manifestar assim, paradoxalmente). Um dos feitos mais notáveis de Chesterton é abrir-nos para a democracia dos mortos, a expressão com que graciosamente cunhou a tradição, e dar-nos a sede de conhecermos os protagonistas de dois mil anos de raciocínio cristão. Inevitavelmente, espero, teremos de chegar a Agostinho. E, já não nos surpreenderemos que o agudo pensamento do argelino não precise de dispositivos amaciadores como o paradoxo literário, possível mariquice de uma tal época em que o ensino oficial é a desaprendizagem. Ou seja, se vais ler o Agostinho prepara-te para que as palavras que ele usa estarem imediatamente ligadas ao que ele quer dizer. Nós, embasbacados, quase que fazemos xixi pelas pernas abaixo, assustados com uma revolução epistemológica deste calibre a acontecer-nos diante dos olhos. Bárbaro.
Quando comecei a ler aquele que é hoje o meu herói John Piper, lembro-me que foi custoso que a cada parágrafo dos seus livros fosse sugerida uma ideia com sentido. O estilo seco não era propriamente atraente mas o que realmente doía é que John Piper acreditasse tanto que era possível pensar com lógica com tanta frequência. Extrair significado parece-nos um luxo e de repente deparamo-nos com homens que descobrem ouro em qualquer calhau. Já não estamos habituados. A ironia é que ler “Da Trindade” de Agostinho não é muito diferente de ler John Piper. Escritores que pegam em versículos bíblicos para os compreenderem. E com isto não significa que estamos na presença de literalistas. Ainda a semana passada escrevia que Agostinho talvez tenha desequilibrado a leitura bíblica medieval que o seguiu a favor de uma abordagem demasiado figurativa (uma das lições de “Hermenêutica Retórica” de Manuel Alexandre Júnior). Neste exemplo concreto, Agostinho está num dos assuntos tidos como mais complexos da fé cristã, a relação entre Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, três pessoas distintas que são um só Deus. Soa-nos criminoso que consiga perceber tanto acerca do tema, apenas a partir da Bíblia.  Boa parte da popularidade da palavra “mistério” nos nossos dias vem, creio, de um reconhecimento que o nosso raciocínio tem limites mas também, receio, de uma preguiça intelectual. Se muitos territórios da nossa fé se tornarem misteriosos deixamos de precisar de a defender. É porreiro.
Não sugiro um Delorean para regressarmos ao Passado. Bem sei as vantagens de ler Agostinho tendo o tempo de Agostinho a 1600 anos de distância. Quando no Expresso passo pela página do António Guerreiro não preciso de chorar por Jerusalém (um cronista tão impenetrável quanto inimputável - para cada fenómeno social que comenta declara a destruição de mais um dogma). Conviver com pessoas que são pagas para suspeitar só torna o trabalho dos que vivem para acreditar mais animado. Afinal, crer num sentido das coisas está tão ilegalizado que o negócio se torna bastante tentador. Como diria o transgressor Agostinho: “as Escrituras não falam de um modo que não se encontre na linguagem humana, porque elas falam certamente para os homens.” Ler para aprender: quem diria.

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