
Clara Barata, jornalista do Público, escreve hoje uma notícia tonta acerca da polémica à volta da opinião contra o casamento homossexual do dono do Restaurante Chick Fil-A que levou os Mayors de Chicago e de Boston a quererem proibir a chegada da cadeia de fast food às suas cidades. O título “A direita religiosa, o casamento gay e o frango que foi apanhado no meio” passa da notícia para o terreno da graçola onde podemos todos sair muito divertidos mas nada informados.
1. O Público erra quando diz que Dan Cathy disse à Baptist Press em meados de Julho que “Os EUA “estão a convidar o julgamento de Deus, ao virarem os punhos para Ele dizendo “sabemos melhor que Tu o que é um casamento”“. À Baptist Press Dan Cathy afirmou uma posição a favor de casamento tradicional (curiosamente a mesma posição que o Presidente Obama teve até há três meses - ver aqui: http://www.bpnews.net/BPnews.asp?ID=38271). Numa entrevista um mês antes, aí sim, Dan Cathy falou no julgamento de Deus numa conversa em que o casamento gay não era o assunto (ver aqui: http://media18.podbean.com/pb/85f844020d766ee7ba3c2aede09349fb/50172374/blogs18/286401/uploads/KCSHOWpod24.mp3)
2. O Público parece usar preguiçosamente fontes americanas que já vêm filtradas sob uma perspectiva hostil à compreensão de alguma actualidade religiosa. Serei o último a defender que é possível informar de uma maneira neutra mas em matérias religiosas o desequilíbrio parece constante. O erro mencionado no ponto 1 já foi apontado ao New York Times e à Associated Press mas o Público parece caminhar sem qualquer pudor de verificar as suas fontes.
3. Provando a minha total parcialidade no tema, sendo Pastor Baptista (e portanto terreno pronto para a colheita da generalização com a “direita religiosa”), gostaria de encontrar no Público não um cuidado especial com a minha sensibilidade religiosa (coisa que um jornal não tem de assegurar) mas um cuidado especial com a sensibilidade jornalística (coisa que um jornal tem de assegurar). Claro que sempre que falamos de bom senso falamos de uma coisa razoavelmente imprecisa para que os códigos deontológicos permitam a liberdade criativa de contar os mesmos factos através de histórias diferentes. Esse é um produto feliz da imprensa livre e que o Público providencialmente usa. Como explicarei então que eu, entre outros portugueses evangélicos que se podem sentir próximos dos americanos evangélicos, me sinta constantemente caricaturado em títulos, expressões e atalhos jornalísticos que rapidamente arrepiariam os cabelos de tantos mais se fossem usados para outra qualquer minoria, religiosa ou não?
4. Como prova última da minha parcialidade, é minha convicção que o Público emprega um dos jornalistas que mais tem feito por uma melhor compreensão da religião na esfera pública: o António Marujo. Será que era demasiado intrusivo da minha parte, enquanto mero leitor, sugerir uma maior entreajuda entre os jornalistas da redacção? Não duvidarei das intenções de Clara Barata mas desejo que entre ela e o António possa haver uma relação em que, ao contrário do título patusco urdido para esta notícia, nada seja apanhado pelo meio. Não para o bem dos leitores religiosos do Público mas apenas para o bem dos leitores do Público.
Com os melhores cumprimentos,
Tiago Cavaco.