
4. As melhores histórias de amor são de rendição e não de escolha
Sob a possibilidade de arruinar esta verdade com um mau exemplo, devo indicar um dos primeiros momentos que ma mostrou na televisão da minha infância: Modelo e Detective. Basicamente “Modelo e Detective” era uma série que, no meio de assinalável impenitência e alguma libertinagem, exibia um romance entre dois sócios detectives que se detestam na mesma medida que se amam. A relação estava longe de ser biblicamente sustentável mas serve para o efeito deste argumento. O diálogo mais comum entre Bruce Willis e Cybill Shepard era blam! Por cada porta que batia a criança que assistia aos episódios tinha o seu entendimento de amor dilatado para a ciência do estrondo. E apercebia-se que um importante apêndice deveria ser acrescentado à moral dos romances aprendidos na infância: com frequência os amantes mais sinceros parecem quererem matar-se um ao outro. Romeu e Julieta de Shakespeare já tinham feito da morte voluntária uma conquista amorosa mas a tentativa de homicídio é outro negócio. Desde que fui exposto a essa compreensão ganhei a consciência que a luz que iluminasse a minha noiva na primeira vez que a visse podia ser crepuscular (e assim acabou por acontecer quando as minhas inaugurais interacções com a Ana Rute tiveram mais de guerra que de galanteio). Tudo isto para dizer que os calvinistas percebem bem que esta mesma lógica se aplica ao romance entre Deus e os seus filhos.
Os maiores amantes de Deus foram antes e sem excepção pessoas que o odiaram. O Criador não tem namoradinhos que o escolheram. Não é o seu estilo. As pessoas que amam Deus contam o enredo explicando que se tratou de um rapto de onde saiu um síndrome de Estocolmo (a estima inesperada que nasce do raptado pelo raptor). O amor cristão é um amante que encurrala o outro, não um encontro paliativo de sinergias. Não se escolhe o Senhor como se escolhe um par de sapatos. As pessoas que falam sobre a sua fé em jeito de opção por Deus além teologicamente equivocadas têm um péssimo critério para histórias de amor.
[Amanhã a quinta razão: João Calvino não inventou o Calvinismo.]