Voz do Deserto
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As Sete Razões Não-Bíblicas que me levaram ao Calvinismo (a sexta razão)

6. As pessoas que odeiam o calvinismo não têm sentido de humor (e de arquitectura)

Não gostaria de colocar a tónica na negativa quando vos falo das razões que me levaram ao calvinismo. Até porque o verbo atrair é fundamental para os calvinistas e a sua acepção é completamente positiva. No entanto, e como em tantas coisas na vida, há caminhos que se percorrem principalmente porque os outros nos desagradaram. E devo confessar que também escolhi o calvinismo porque as outras opções me pareceram piores. Ora, ao usar o verbo escolher sei que me podem acusar de contradição depois de tanta pancada dada no livre-arbítrio. E se o fizerem apenas confirmam a tese deste ponto: na incapacidade de acolherem paradoxos, coisas que parecem mas não são contraditórias, os não-calvinistas mais que revelarem pouca nuance revelam falta de sentido de humor.
Pode ser um cliché preguiçoso mas também acho que o humor é sinal de inteligência. Não afirmo que o humor é sinal de discernimento (o mundo está cheio de pessoas bem-dispostamente erradas) mas que os que têm discernimento têm também algum humor. Creio que o sentido de humor passa por uma capacidade de jogar com a proporção das coisas, sugerindo novas combinações a partir de comparar medidas diferentes. Humor é tanto recreio quanto medição. Para não tornar isto demasiado abstracto: rio-me com o que me faz parecer novo o que não o é (e para o efeito do argumento: nada é puramente novo num mundo que não foi criado pelas criaturas que o habitam). As coisas mais engraçadas são para mim inaugurações de antiguidades e provocam um efeito de surpresa que vai além da sua utilidade. Isto faz-me perceber a ligação directa entre beleza e verdade e estar mais sensível a alegrar-me com tudo aquilo que subsiste por ser bonito, independentemente de o compreendermos e o sabermos aplicar na hora. Por que se riem os homens de coisas que não lhes enchem o estômago? Porque a sobrevivência é também uma questão de alegria. É a verdade a ser saboreada antes de ser entendida.
É aqui que entram os não-calvinistas e a sua falta de sentido de humor. A minha tese é: o pragmatismo intenso do que crê que tudo só se resolve a partir da sua intervenção individual sobre o universo externo perturba todos os momentos que não trazem explicação (logo a acusação simplista de Deus não poder existir por causa do incompreensível sofrimento da humanidade, ou, existindo, não poder ser bom). A pessoa inquieta-se (e equivoca-se) e fica menos disposta a olhar à sua volta para tudo o que existe além da urgência da resposta que procura (não aceitar a existência do sofrimento é um recuo a só sabermos viver com o que sabemos explicar - uma triste ironia sobretudo para os cristãos que supostamente acreditam que Deus reconcilia o mundo consigo através do sofrimento voluntário do Seu filho). Logo tem menos atenção para ver. Quanto menos vê, menos aprecia e quanto menos aprecia menos compara. Quanto menos compara mais material de alegria perde, alegria essa de jogar com combinações frescas de medidas conhecidas. Resumindo muito: o não-calvinista preocupado em resolver o mundo a partir da sua liberdade ri demasiado pouco. Rir pouco é grave porque ajuda-o a reduzir o cosmos à sua ansiedade. Reduzir o cosmos à nossa ansiedade é uma distorção violenta da realidade porque uma coisa é uma pessoa e outra coisa é o cosmos. Rir é por isso discernimento (o contrário do provérbio português que diz “muito riso pouco sizo” e que alimenta a condenação que os vizinhos culturalmente católicos estendem às pessoas que saem das igrejas evangélicas sem o ar pesado da religião). Não saber rir é não saber avaliar. E fechar os olhos ao que não tem explicação imediata. Um mundo sem mistério é uma mentira grosseira porque o homem é pequeno demais para a grandeza da Criação. Os calvinistas estão mais abertos ao mistério do mundo que é Deus ter nas suas mãos a história de tudo. Riem mais porque reconhecem as larguras e os comprimentos e jogam com eles através das regras do Criador. Não é ao calhas que investem em arquitectura (ainda que possivelmente simples). Os não-calvinistas são péssimos em arquitectura (numa escala geométrica como comparar a vontade do homem com a vontade de Deus?) e por isso os primeiros a meter neóns e powerpoints pirosos (vocês já viram que este é-me um assunto caro) nas suas casas de oração. Onde a beleza e a verdade se submetem à ditadura da escolha qualquer pedaço de lata vale por termos sido nós os primeiros a ver nele o brilho do sol, uma metáfora possível da nossa obsessão com a novidade. A lógica da liberdade está a matar o deslumbramento com o que é belo e verdadeiro. E a fazer-nos rir menos. Os calvinistas não estão nessa.

[Amanhã a sétima e última razão: a oração não é uma declaração de independência.]

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